Olímpico, companheiro e testemunha de fortes emoções

O Olímpico me lembra um domingo de sol na cara no tempo em que não havia a arquibancada superior, e ninguém falava em protetor solar.

Corriam os anos 70, quer dizer, se arrastavam. A cada ano, mais um título colorado, mais uma frustração. Mais uma dor no peito, como uma medalha com a agulha rasgando a carne.

Sou um sobrevivente dos anos de chumbo. Sobrevivi ao massacre colorado, que empilhou títulos regionais e conquistou três brasileiros, e ainda saí ileso dos efeitos maléficos do sol em excesso.

Quando comecei a viver o Olímpico, vindo de Lajeado – eu e o meu amigo Ricardo Marmitt -, eram anos terríveis. Era o tempo de Loivo, o “Coração de Leão’, como narrava Milton Jung ao microfone então imbatível da rádio Guaíba.

Admito que raras são as imagens que preservo daquele tempo de dinheiro curto como a esperança de um título naquele tempo de dominação vermelha.

Uma delas é quase um pesadelo: Loivo, aguerrido como sempre, rouba uma bola na linha do meio de campo e corre rumo à área, pela esquerda, em diagonal. É perseguido por zagueiros furiosos.

O goleiro sai até o risco da grande área. Era o momento colocar o pé embaixo da bola e buscar o gol por cobertura. Loivo chutou no corpo do goleiro. No corpo de goleiro!

Não me lembro quem era o adversário, menos ainda o resultado. Só não esqueço a minha irritação com esse lance. Xinguei Loivo e suas futuras gerações, sobrando até para o Milton Jung, com quem tive a honra de trabalhar alguns anos depois.

Comecei a descobrir ali, naquele dia distante do início da década de 70, que eu, um guri pacato vindo do Interior, que me associara ao Grêmio mais pelas piscinas do que pelo futebol, tinha um lado animal que até então desconhecia.

Foi esse mesmo animal que escapuliu quase num final de Gre-Nal, Olímpico lotado, o sol fritando os miolos. Quarenta e poucos do segundo tempo, O a O, a bola é lançada na área gremista e ele – vocês sabem a quem me refiro – salta mais alto que todo mundo e cabeceia para a rede. Gol. Gol de Escurinho, claro.

Não lembro quem era o goleiro, quem eram os zagueiros, só me lembro que um torcedor colorado se ergueu à minha frente, uns quatro lances de arquibancada na geral, e vibrou. Foi uma vibração contida, que ele em seguida tentou disfarçar. Mas era tarde.

Meu radinho de pilha, que naquele tempo custava caro, já estava voando na direção dele, que logo foi cercado por meia dúzia de gremistas e levou uns cascudos pra aprender a se comportar no meio da sofrida torcida adversária.

Perdi o jogo, perdi o radinho.

Mas nem tudo era só sofrimento. Em 1977, quando eu ainda cursava jornalismo na Ufrgs, a série de títulos que o Inter empilhava chegou ao fim. E o fim começou com Oberdan desembarcando e afirmando, sereno e ameaçador, que a partir daquele momento ninguém mais faria gols de cabeça no Grêmio. “Quem manda na área sou eu”, repetiu.

O Inter, com seus dois títulos nacionais, finalmente foi batido. Iúra, que está na minha seleção de todos os tempos, lançou André Catimba pela meia esquerda. Gol. Foi minha primeira grande emoção no futebol.

O próprio Olímpico parecia vibrar ao ritmo de sua torcida, como se torcida e estádio fossem um só.

Por pouco não invadi o campo antes do final como fizeram centenas de gremistas tão ou mais sofridos que eu.

Aquele 25 de setembro marcou a minha primeira grande alegria no Olímpico Monumental.

Depois, vieram outras, como as vitórias que levaram o time a conquistar o Brasileiro de 1981 contra o São Paulo – que tinha a metade da seleção brasileira – em pleno Morumbi, golaço do grande Baltazar. Comando do estrategista Ênio Andrade.

Nesse período eu já trabalhava como repórter esportivo na Folha da Tarde, onde ingressei no final de 1978, quando me desliguei do quadro social do Grêmio.

Carrego comigo a convicção de que contribuí para essa conquista memorável que abriu o caminho do mundo para o Grêmio. Mostrei um loirinho endiabrado do time junior ao distraído técnico Orlando Fantoni, o ‘titio Fantoni’, que gostou da dica e investiu no ponta Odair.

Ao lado de outros setoristas gremistas da época fiz campanha para que a gurizada da base jogasse em lugar dos ‘estrangeiros’ Uchoa e Dirceu, por exemplo. Com isso, apareceram Paulo Roberto, Casemiro, Paulo César e outros.

Em 1983, o ano mais glorioso do Grêmio: Libertadores e Mundial de Clubes. Eu estava sendo ressarcido com juros e correção monetária de todo o sofrimento da década de 70.

Enfim, o Olímpico faz parte da minha história, da minha vida. Ali vivi momentos de alegria e de tristeza; de realizações e frustrações. Situações que se intercalam como acontece na própria vida de cada um.

Hoje, quando olho para esse gigante de concreto fico com dificuldade para entender como algo tão majestoso, tão… olímpico, precisa desaparecer.

Um dia, naquele lugar, serão erguidos prédios muito altos, tão altos que darão a impressão de que tocam as nuvens, mas eu tenho a sensação de que nunca os verei realmente.

Acredito mesmo que, até o último dos meus dias, sempre que eu passar pela ‘rótula do Papa’ ainda estarei enxergando, com absoluta nitidez, tendo ao fundo o azul das manhãs mais radiantes, o velho Olímpico Monumental, companheiro e testemunha de algumas das mais fortes emoções que senti ao longo da vida.

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