A obra dos Assis Moreira

A obra dos Assis Moreira está incompleta.

Os alicerces foram colocados há muito tempo, quando o então jovem Assis, reluzente promessa das categorias de base – o melhor que vi antes da profissionalização, sem qualquer dúvida, superior até ao seu irmão mais novo – fugiu do Olímpico para acertar com o Torino, na Itália.

Na volta, ganhou do presidente do Grêmio na época, Paulo Odone, uma bela casa na zona sul de Porto Alegre. Uma casa com piscina, onde tempos depois… Bem, deixa pra lá, não vem ao caso.

Graças ao talento de Assis, a família humilde começou uma nova vida. Os tempos de pobreza ficaram para trás. Assis nunca foi o craque que prometia na base. De meia atacante goleador, passou a jogar numa faixa mais tranquila do campo, afastado da área inimiga. Mesmo assim, se destacou e ganhou dinheiro suficiente para proporcionar segurança e tranquilidade aos Assis Moreira.

Foi nesse meio que cresceu o pequeno Ronaldo, o Ronaldinho. Um raro exemplo de irmão mais novo que superou o mais velho.

Ronaldinho não ficou só na promessa de craque como seu irmão. Foi mais longe, muito mais longe.

Quando começava a aparecer como grande estrela do futebol brasileiro, Ronaldinho esqueceu as juras de amor ao Grêmio, o clube que acolheu os Assis Moreira, e proporcionou condições para que os dois irmãos desenvolvessem seus potenciais.

Depois de encenar uma renovação de contrato, Ronaldinho Gaúcho, tutelado pelo irmão Assis, bateu asas e voou, cruzando o Atlântico para defender o PSG.

Foi um golpe terrível para o Grêmio e uma decepção profunda para os gremistas. O jovem ídolo, que recém começava a brilhar, partia prematuramente, deixando atrás de si um rastro de revolta e ódio.

A obra maligna dos Assis Moreira contra o Grêmio não terminou aí. Certo dia, Assis retirou o seu filho dos juvenis do Grêmio, levando-o para o Inter. É claro que com grande cobertura da imprensa. O guri não deu certo no futebol. A jogada limitou-se a um lance midiático, mas sinalizou que ainda havia algo mais por vir.

E veio. Hábil negociante, sem qualquer escrúpulo (há quem entenda que em negócios não se pode exigir ética), Assis acenou com a possibilidade da volta de Ronaldinho ao Grêmio. Aqui, em sua antiga casa, Ronaldinho recuperaria o gosto pelo futebol, deixando o pagode e as noitadas em segundo plano. A direção do Grêmio acreditou. Eu vacilei como o Dunga naquele Gre-Nal, e acreditei. A maior parte da torcida acreditou, e se mostrou pronta a perdoar o antigo ídolo. Enquanto o Grêmio preparava uma festa para receber Ronaldinho, os Assis Moreira negociavam com outros clubes. O Grêmio servira apenas para atrair outros interessados, entre eles o Flamengo.

O golpe derradeiro dos Assis Moreira pode acontecer neste domingo. Ronaldinho, vestindo a camisa do Flamengo, volta ao Olímpico depois de tudo o que se passou. Há um clima belicoso no ar.

É como um vazamento de gás num prédio fechado. Qualquer faísca irá provocar uma explosão.

Ressentida, a torcida vai se manifestar contra Ronaldinho. São anos e anos de espera por esse momento.

A obra dos Assis Moreira estará concluída com a interdição do Olímpico.

Para isso, bastará um gesto, uma atitude, um sorriso debochado de Ronaldinho diante das manifestações hostis. Bastará uma faísca para que um torcedor reaja da pior maneira.

Se isso acontecer, a obra contra o clube que retirou os Assis Moreira da pobreza e contribuiu para a riqueza material da família estará finalmente concluída.

E Ronaldinho sairá do estádio como vítima, mal contendo aquele sorriso dos tempos em que jogava futebol com legítima alegria.

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