De novo uma década vermelha

Toca a campainha às 8 e meia desta manhã. Ao longe, ainda detonam alguns foguetes. Moro longe da área de maior tumulto, mas tenho vizinhos que gostam de soltar foguetes, não importa o horário. Foi uma noite mal dormida.

Abro a porta. É um motoboy, de uns 20 anos, todo fardado de Grêmio. Só faltava a chuteira.

– Bah, cara, tu é corajoso, hein?

Ele responde, mais rápido que o Taison fugindo pela esquerda:

– A gente não pode se mixar pra ‘eles’. Só agora, 15 anos depois, ‘eles’ conquistaram um título que a gente já tinha. A gente não pode é se acomodar.

Peguei a encomenda, assinei o recibo e agradeci.

Ele montou na moto, enfiou a cabeça num capacete azul e arrancou.

Não há bem que sempre dura, nem mal que nunca acabe – já diziam os avós.

No futebol não é diferente. Esse motoboy, entristecido, mas altivo em seu gremismo, ainda terá muitas alegrias com o seu clube. O futebol é assim. É como a vida, ciclos que se alternam. Por vezes, bons; outras vezes, nem tanto; e alguns ruins. O problema é que os ruins marcam mais.

Eu sou um sobrevivente da década de 70. Sou curtido, forjado naqueles anos de muito sofrimento para os gremistas. Eu era jovem. A década de 60, de supremacia tricolor, eu acompanhei do Interior, pelo rádio, pelos jornais, recém brotava para a adolescência. Tudo ainda muito distante.

Quando o Inter inaugurou o Beira-Rio e começou sua reação, eu preparava as malas para vir para a cidade grande, deixando Lajeado para trás.

O Inter passou a empilhar títulos regionais justamente nessa fase. Quando desembarquei em Porto Alegre, em 71, o Inter já era bi gaúcho, se encaminhava para o tri. A única alegria nesse período foi ter o gremista Everaldo como titular da maior seleção brasileira de todos os tempos, a maior seleção de futebol de todos os tempos, a de 70. Quem tem, tem, quem não teve, nunca terá.

Apesar de tudo, me associei ao Grêmio, para torcer, curtir suas piscinas e suas gurias.

Depois, vieram os dois campeonatos brasileiros. O Grêmio, em 77, interrompeu a série de títulos gaúchos do rival. Foi muita emoção, a minha primeira grande emoção como torcedor adulto, de arquibancada no sol, na chuva ou no frio. Inesquecível.

Em 79, um balde de água vinda das geleiras da Antártica: o título brasileiro invicto do Inter, o tri. O Grêmio não tinha unzinho sequer.

Não há mal que nunca acabe…

Em 81, o Grêmio conquistou o brasileiro. De novo, muita emoção. No ano seguinte, o vice, numa final roubada para o Flamengo. Eu era repórter da TV Bandeirantes, repórter de campo nas transmissões para todo o país. Vi de perto a garfeada.

Depois, a Libertadores e o Mundial. Nada podia ser maior. O sofrimento dos anos 70 estava plenamente recompensado. A partir daí, foram os colorados que penaram.

Então, quem foi curtido nos anos 70 não se assusta. Hoje, continuo gremista, claro, mas um gremista amenizado pelo tempo e pelo longo trabalho na imprensa esportiva. Foi através desse trabalho que aprendi a admirar e até a gostar do Inter, que me acolheu muito bem como jovem setorista em 1976, como estagiário do extinto Diário de Notícias.

Nos anos que se sucederam consolidei uma convicção: não vale a pena canalizar nossas energias para o futebol.

Ganhou, ótimo, vamos festejar. Perdeu, pena, vamos seguir em frente. Amanhã, pode ser a nossa vez.

O Inter mereceu ser campeão. Sua direção fez a diferença. Errou ao escolher Fossati. Corrigiu o erro a tempo. Reforçou o time a toque de caixa. Resultado: o bicampeonato da Libertadores.

O futebol requer planejamento, mas também improvisação. Requer competência, conhecimento, agilidade. Tudo isso sobra no Inter.

O Inter fez por merecer, assim como o Grêmio no passado. Estão de parabéns os colorados. A cidade amanheceu vermelha. Um dia já foi azul. E se nada for feito no Olímpico, haverá de seguir cor de sangue por muito tempo.

Mas, como ensinou o motoboy fardado de azul, branco e preto que encontrei nesta manhã colorada, é preciso não se encolher, e reagir.

O Grêmio AINDA é muito grande.

SAIDEIRA I

Não tenho qualquer dúvida de que o Grêmio deixou escapar o tri da Libertadores no ano passado por absoluta incompetência de seus dirigentes, em especial dos dois que comandavam o futebol, mas também do presidente, que parece nada ter aprendido com lideranças que conheceu de muito perto, como Rudy Petry, Olmedo, Hélio Dourado, Fábio Koff, etc.

SAIDEIRA II

Dias desses, um botequeiro lembrou de uma previsão do astrólogo Bruno Vasconcelos, feita se não me engano em dezembro de 2003, no Correio do Povo. Bruno, de quem acabei ficando amigo depois de muito tempo fazendo previsões a cada final de ano sobre a dupla gre-nal, previu que o Inter passaria a viver um período semelhante ao da década de 70, acumulando conquistas.

Bruno morreu faz três anos. Depois de sua morte, em respeito à sua memória e chateado com o deboche de ouvia de colegas (uns poucos, mas irritantes) sobre esse meu trabalho, desisti de publicar previsões astrológicas nas páginas do CP.

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